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O ESTUPRADOR
Giulia Pierro
1  
 

Naquele dia a turma estava com a macaca. Dona Antonia, a inspetora de alunos, estava sentada ao lado da porta de entrada, morta de dor nas pernas, por causa das varizes. Ela via os alunos correndo no pátio e procurava olhar por cima e entre as figuras em movimento. A Terceira B estava com aula vaga: a professora tinha ido ao médico e só ia chegar depois do recreio. Tinha um grupo embolado num canto do pátio. Eram uns três ou quatro alunos, que pareciam estar num jogo de empurra-empurra. De repente uma menina começou a gritar:
- Ele mexeu comigo, ele mexeu comigo!
A menina, Carolina, correu para fora do grupinho e ficou ao lado de Dona Antonia. Os outros alunos se embolaram ainda mais e começou uma pancadaria. Dona Antonia, finalmente, conseguiu levantar e foi correndo até lá:
- Que tá aconteceno aí? Pode pará!
Ela só conseguia ver o Wilson no chão e dois alunos batendo furiosamente nele.
Dona Antonia tinha um apito e apitou bem forte no ouvido dos meninos, que se assustaram e levantaram, deixando o Wilson no chão, chorando.
- Já pra diretoria, todo mundo!
Dona Antonia pegou os dois meninos pelo braço e esperou o Wilson levantar do
chão, depois foi com os três para a diretoria. A diretora também ainda não havia chegado e os três ficaram sentados no banco do corredor, olhando pro chão. Enquanto isso, Dona Antonia aproveitou pra fazer o primeiro sermão do dia:
- Tem que tá sempre aprontando arguma? Quiquocêsganha co isso, hen?
Os dois meninos, Fábio e Cláudio, começaram a se agitar:
- Cê sabe, né, Antonia, quem foi que começou...
- É, é sempre ele que começa...
- Sei nada não! Cês sempre bota a curpa no Wirso, mas pensa que tô cega, hen? Tô cansada de vê cêis arrumá encrenca pra cima dele, só pra si diverti. Quero sabê quiquocês vão contá pra diretora...
Wilson continuou olhando pro chão e não abriu a boca. Cláudio foi se justificando com Dona Antonia. Ela não mandava nada, mas a molecada sabia que ia ser chamada a testemunhar, portanto sempre tentava fazer alguma média com ela:
- Ó, eu tô até com vergonha de falar o que ele fez, viu?...
- Acho qui num tem nada pra falá, memo. E toma cuidado, viu, porque de tanto falá bestêra, si você mordê a língua vai morrê invenenado!
Fábio veio em ajuda ao colega:
- Ó, cê tem que perguntar pra Carolina. Ela vai contar o que o esse cara fez pra ela!
Cláudio fez coro:
- É, chama a Carolina, ela vai falar o que ele fez.
Dona Antonia acabou com o lero-lero:
- Conheço muncho bem essas fala docêis: nu é pra mim que vão tê que explicá!
A diretora chegou e fez cara feia ao ver a turma sentada no banco:
- Não tem um dia que eu possa chegar sossegada e sentar à minha mesa, hein?
Ela continuou resmungando qualquer coisa e entrou na sala da diretoria,
fechando a porta com mau humor.
Os três meninos ficaram calados, olhando pro chão e aguardando a diretora abrir a porta e chamar. Uma mosca zumbia e ia de um a outro, fazendo cócegas no ouvido.
Finalmente, Dona Alzira abriu a porta e chamou Dona Antonia primeiro. As duas cochicharam lá dentro da sala. Depois a diretora pediu pros três meninos entrarem sozinhos.
- Então, quem começou essa confusão?
Fábio e Cláudio falaram ao mesmo tempo, apontando Wilson:
- Ele!
- Como foi a história?
Cláudio disfarçou timidez:
- Diretora, a Sra. precisa chamar a Carolina. Ela vai explicar melhor...
- A Carolina também está metida nesta confusão?
Os dois confirmaram:
- Hum hum...!
Dona Alzira chamou Dona Antonia:
- A Carolina também estava na briga?
Dona Antonia tinha medo da diretora e falou bem baixinho:
- Não, qué dizê, ela tava junto antes da briga...
- Então chame ela também, porque não estou conseguindo saber o que aconteceu.
Carolina chegou olhando pro chão, trêmula.
- Carolina, você participou da briga?
- Eu não...
- Você estava junto?
- Eu tava brincando de pega-pega, daí...
- Daí o quê?
- O Wilson...
Silêncio.
- Vai falar ou não vai?
Silêncio...
- Wilson, você pode me explicar esta história? Você fez alguma coisa pra Carolina?
Wilson negou com a cabeça, sempre olhando pro chão.
A diretora começou a perder a paciência:
- Se ninguém falar, vou dar suspensão pros quatro e chamar os pais de vocês aqui pra conversar!
Carolina reagiu:
- Mas eu não fiz nada!
- Então fala o que aconteceu!
Carolina ficou toda vermelha e disse baixinho:
- A gente tava brincando de pega-pega, daí o Wilson ...
- Wilson o quê?
- ...passou a mão em mim.
- Passou como?
- Assim, de passar a mão...
- Menina, você precisa explicar melhor!
- Ele passou a mão no meu...
- No seu bumbum?
Carolina hesitou.
- É isso, Carolina?
Carolina confirmou com a cabeça.
Dona Alzira perguntou:
- É isso, Wilson? Você fez isso?
Wilson continuou olhando pro chão e negou com a cabeça.
- Wilson, quero que você olhe pra mim!
Wilson levantou a cabeça e encontrou o olhar da diretora. Não era ameaçador: ela queria saber a verdade. Wilson catou coragem e falou:
- Fiz não...!
Carolina começou a chorar baixinho. Dona Alzira dirigiu a palavra para Cláudio
e Fábio:
- Vocês estavam junto naquela hora? O que vocês viram?
Fábio:
- Pois é, a Carolina gritou e a gente viu.
Cláudio:
- A gente tava correndo atrás dela e viu.
- Espera aí, pessoal! Não podia ser um gesto involuntário, durante a corrida?
Cláudio:
- Mas ela gritou, diretora!
- Então, se ela não tivesse gritado, você não teria percebido nada, certo? Como é que ela poderia gritar antes do fato?
Os dois meninos ficaram confusos. Carolina chorando. Dona Alzira continuou o
interrogatório.
- Carolina, você acha que ele fez de propósito?
Carolina parou de chorar e olhou pra diretora:
- Ele passou a mão.
Dona Alzira perguntou pro Wilson:
- Você percebeu que passou a mão nela?
- Eu fui pegar ela. Acho que peguei de mau jeito...
A diretora olhou pra Carolina.
- Pode ter sido sem querer, você não acha?
- Minha mãe fala que homem é tudo assim mesmo...
- Carolina, ele ainda não é homem! E apanhou pra valer. Você não acha que ele já teve um castigo?
Dona Alzira olhou para Cláudio e Fábio:
- Essa confusão não precisava ter acontecido. A gente deixa vocês brincarem no pátio porque sabe que criança precisa de lugar pra correr, mas tudo é motivo pra vocês arrumarem confusão. Tá certo vocês ficarem agredindo o colega assim, sem mais nem menos?
Os dois demoraram para responder. Depois Cláudio falou:
- A gente foi defender...
A diretora perdeu a paciência e gritou:
- Defender o quê?!
Depois de uma longa pausa, sem mesmo o zumbido de uma mosca, Dona Alzira continuou:
- Bom, agora que já perdi um bom tempo da minha manhã, quero que vocês me digam qual o castigo que vocês merecem.
Silêncio. A diretora concluiu:
- Hoje eu vou deixar passar, mas quero que fique claro o seguinte: da próxima, todo mundo vai levar suspensão .
Dona Alzira olhou pra Carolina:
- Da próxima vez, presta bem atenção no tipo de acusação que você faz! Brincando de pega-pega é sempre possível que alguém pegue você de mau jeito, sem querer. Agora, todo mundo pra aula!
Dona Antonia entrou:
- A professora Vera inda num chegô!
A diretora mandou os quatro permanecerem sentados no banco do corredor, enquanto a professora não
chegava. Dona Antonia ficou junto e não deixou ninguém abrir a boca: falou que era pra cada um ficar pensando no que havia feito. A mosca continuava zumbindo entre eles e ainda havia arrumado uma companheira pra ajudar. Wilson olhava pelo vidro da porta dos fundos e via sua amiga jabuticabeira florindo....

 

 
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